O projeto “Conversas com Memória” consiste na realização de tertúlias sobre aspetos marcantes da identidade de Peniche, de modo a trazer à atualidade memórias de vários intervenientes, em variados temas, garantindo que estes momentos ficam documentados e com um arquivo futuro de partilhas que são parte da história local.

A memória da indústria de congelação

A primeira Conversa a ser dinamizada foi sobre a “História da Indústria de Congelação em Peniche” (2024). Um momento importante para a história desta terra piscatória, que acabou por levantar temas como a possibilidade de a primeira unidade de congelação industrial, em Portugal, se ter localizado em Peniche.

Além de se abordar a história da indústria em Peniche, nesta conversa pretendia-se perceber se “teria sido em Peniche a primeira indústria de congelação em Portugal?”.

Existiu em Peniche durante muitos anos, talvez até ao final dos anos 70 a “Indústria Portuguesa de Congelação”, localizada ao lado da Escola Primária nº 1 (Escola Velha), que, posteriormente foi o local da Camionagem de passageiros “CLARAS”. Mas os proprietários da referida indústria, construíram, quase simultaneamente, em Peniche e em Olhão, sendo difícil confirmar a resposta à pergunta lançada nesta tertúlia.

Peniche foi, de facto, pioneira na indústria de congelação em Portugal.

Poucos anos depois surgiu uma outra unidade de Congelação em Peniche, “Sociedade Frigorífica de Peniche” cujos proprietários eram empresários locais. Esta unidade operou até muito mais tarde, tendo sido muito inovadora na congelação de vegetais (ervilhas, favas, entre outros).

Características e dinâmicas das famílias de pescadores nos finais dos anos 60, início de 70

Já este ano (2026) foi dinamizada uma “Conversa com Memória” sobre as “Características e dinâmicas das famílias de pescadores nos finais dos anos 60 e princípios dos anos 70”, trazendo memórias ainda muito vivas nas gerações mais velhas, mas completamente desconhecidas das gerações mais novas.

Uma conversa muito importante no que respeita à partilha de legado social e cultural entre gerações.

A questão de partida foi: “Até que ponto, o facto dos pescadores trabalharem de noite afetou, até aos dias de hoje, as dinâmicas culturais de Peniche”. Além desta questão, naturalmente foi abordado o papel da mulher nestas dinâmicas familiares.

O decurso da conversa levou à abordagem das formas de remuneração dos pescadores:

Nos dias de hoje, com pequenas diferenças, devido a exigências fiscais, a forma de remuneração ainda se mantém.

Os pescadores têm o seu salário (quinzenal, denominado quinzena) que corresponde a uma percentagem do produto da pesca naquele período e uma remuneração semanal (carretos ou pensões) que corresponde ao número de cabazes descarregados.

Geralmente a primeira remuneração (quinzena) era integralmente entregue à mulher e a segunda (pensões) servia, geralmente, para os gastos supérfluos diários.

Na verdade quem geria/gere? a casa, no seu quotidiano, era/é? a mulher. As decisões mais importantes, mais estruturantes seria o homem, sempre com a influência da mulher.

Com os filhos a educação, geralmente, era da responsabilidade da mulher, até porque o homem passava muito tempo fora de casa.

Estando o homem no mar após o horário normal dos “terrestres”, não estava disponível para atividades lúdicas regulares. A mulher, não estando o homem em casa, também não saía. Esta dinâmica manteve-se durante décadas.

Talvez, pelo referido, Peniche tinha pouca atividade cultural. Será que hoje estamos a quebrar a dinâmica conservadora? Será que se manteve o hábito da não participação?

Baluarte um jornal na Revolução e Baluarte aos Quadradinhos

Realizou-se no Clube Recreativo Penichense, em 26 de Abril de 2026, uma tertúlia que incidia sobre o espólio relacionado com o Jornal “Baluarte” que existiu em Peniche entre Setembro de 1974 e meados de 1976, com cerca de 30 edições com pequenas tiragens cada.


Após a apresentação (em anexo), houve uma troca de perguntas e respostas, na qual se divulgou que os desenhos do jornal se deveram, na sua grande maioria à Dra. Helena Gil que estava presente. Numa breve análise sobre os apontamentos de “banda desenhada” ficou expressa a qualidade dos respetivos desenhos.


Tendo sido o jornal Baluarte, no início, um projeto da tendência política da esquerda unida, ao longo da sua existência houve algumas disputas partidárias que originaram mudanças de direção do Jornal.
O projeto inicial saiu do MES – Movimento da Esquerda Socialista e envolveu toda a “esquerda”, concretamente a CDE, hoje CDU, partido muito próximo do Partido Comunista Português.


Foi referido que a grande desunião da “esquerda” se deveu, em muito, às eleições Presidenciais de 1976, ganhas pelo General Ramalho Eanes, em que Otelo Saraiva de Carvalho, candidato de quase toda a “esquerda”/”extrema esquerda” perdeu com cerca de 16%. Segundo o referido, esta tendência foi
confirmada cinco anos depois, em que Otelo Saraiva de Carvalho obteve só cerca de 5%.


A Palestra conduzida por Adriano Constantino e António Martinó de Coutinho foi finalizada, com o reconhecimento da importância deste tipo de realizações. Estavam presentes cerca de 30 pessoas.

 

 

O vinho, as vinhas e as tabernas de Peniche

Pelos anos de 1830 a vinha foi a atividade económica com uma expressão muito relevante, logo a seguir à pesca.

Assim e sobre o tema juntaram-se nesta conversa conhecimento científico e memórias antigas destas realidades.

A produção de vinho chegou a ser protegida, devido ao preço mais elevado, porque era muito caro manter as vinhas e produzir vinho em Peniche. Só se podia vender vinho de fora (geralmente mais barato) quando se esgotava o vinho da terra. Sempre vinho branco e de elevado grau alcoólico (14 – 16º).

Na abordagem às tabernas realçou-se nesta conversa que havia muitas mulheres, quer proprietárias, quer a servir nas tabernas. Eram nas tabernas os momentos de descontração dos pescadores.

Recordou-se o Sr. Humberto da Taberna “Cabacinhas” e a sua grande disponibilidade para ajudar quem precisava e, eram muitos. Há sempre histórias das ajudas dos proprietários das tabernas, principalmente às crianças.

No aparecimento da televisão, era nas tabernas onde, muitas vezes, as mulheres e as crianças podia ter acesso a esta novidade. Nalguns casos em espaços separados.

Pelos anos 1950/60 as casas, em muitos casos, não tinham condições para se tomar banho e os Bombeiros, bem como a taberna do “Joaquim Saloio”, instalaram chuveiros, para os quais, no segundo caso se cobrava 3,5 escudos por um banho, geralmente semanal.

Mantém-te atento às próximas Conversas com Memória.