Tragédia há 240 anos
O Naufrágio do San Pedro de Alcântara
No dia 2 de fevereiro de 1786, um navio de guerra com 64 canhões – que partira do Peru rumo a Cádis, com 150 toneladas de moedas de ouro e 600 toneladas de cobre, prisioneiros incas e dezenas de tripulantes – afundou na Papôa, em Peniche. Morreram 128 pessoas No evento da CMP que assinalou os 240 da tragédia, o principal orador foi o arqueólogo náutico, Jean Yves Blot, responsável pela equipa que – de 1984 a 1999 – localizou os destroços do navio.
Foi em conversas com as gentes de Peniche que Jean Yves se apercebeu como o conhecimento popular, a transmissão oral e os artefatos recolhidos por particulares ajudam os investigadores. Ao ver as ossadas que estavam dentro das caixas, estranhou os cadáveres terem dado à costa apenas 3 semanas depois do naufrágio. Assim era, confirmou uma mulher vestida de negro: é mesmo quando o mar engole uma traineira: os corpos vão aparecendo ao longo de 21 dias.
Quando falou da revolta inca de 1780 contra o domínio colonial espanhol do Peru, pois alguns náufragos poderiam ter sido prisioneiros dessa revolta, Joaquim mostrou-lhe um texto de 1572 sobre a conquista do Peru pelos espanhóis e um primo tinha um resto de cadeado de cobre, com o lema da Ordem da Jarreteira: “Que a vergonha caia sobre quem pense mal”. Já António Pedro contou-lhe que, em criança, o bisavô Guilherme lhe falava de um navio espanhol cheio de riquezas que afundou na Papôa e que o padre até ameaçou excomungar quem fosse à cata do ouro. Bem podia o padre amaldiçoar quem caísse em tentação, tanta era a fome que muitos trocavam as moedas achadas por baldes com sardinhas.
O presidente da Câmara de Peniche, Francisco Sales contou que parte do cobre transportado no navio serviu para construir um para-raios – inventado em 1752 pelo diplomata e coautor da declaração de independência dos EUA, Benjamin Franklin. Isto, porque uns monges franciscanos do Convento de Mafra foram fulminados durante uma trovoada e o Convento precisava do cobre. O engenho ficou pronto em 1787, foi o primeiro em Portugal.
Sobre este assunto, Jean Yves lembrou os 90 carros de bois que saíram de Peniche para Lisboa carregados de cobre, tendo Frei Assunção, em Mafra, ficado com 5 toneladas para a construção do aparelho que atraía os relâmpagos.
Sobre os trabalhos arqueológicos, o arqueólogo referiu a vastidão marítima sondada: 2 hectares e meio de área, de onde se extraíram 4630, agora no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa.
Para Rui Venâncio, da CMP, depois do Terramoto de 1755, este naufrágio foi o acontecimento mais coberto pelas gazetas (jornais da época) europeias, que enviaram repórteres e ilustradores a Peniche. Foi uma dessas gravuras de 1789 – onde se vê um cruzeiro no Porto da Areia Norte – que permitiu identificar o local onde estava enterrada a maioria dos corpos. Outros foram sepultados “em solo sagrado”, ou seja, dentro de igrejas.
Sem haver ainda um local para mostrar as peças ao público, o presidente da CMP referiu ter pedido ao Ministério da Cultura a cedência de uma parte da Fortaleza, para se instalar o Centro Interpretativo da Praça Militar de Peniche, com o espólio do navio. Em criação está o itinerário digital sobre a comunidade penichense e o San Pedro de Alcântara (1786-2026), revelou Célia Quico, investigadora da Universidade Lusófona, responsável pelo projeto.
Além deste, outros naufrágios ocorreram junto à costa portuguesa. Localizar os navios afundados e trazer à superfície objetos que fazem parte do património marítimo nacional é a missão do Museu da Marinha, disse o seu diretor, António Augusto Alves Salgado. Registar o cadastro submerso é urgente e tem de ser feito antes que os parques eólicos sejam colocados na nossa zona marítima.